PUBLICIDADE

Juros altos impulsionam dívida pública do Brasil, não gastos, alertam economistas

Paulo Pinto/Agência Brasil" title="Paulo Pinto/Agência Brasil">
Paulo Pinto/Agência Brasil" title="Paulo Pinto/Agência Brasil">

A discussão sobre as causas do endividamento público no Brasil ganha novos contornos com a análise de economistas que desafiam a narrativa tradicional. Contrariando a tese de que os gastos públicos são os principais vilões que levam à elevação dos juros e da dívida, um grupo de especialistas aponta para os juros altos pagos pela União como o verdadeiro motor dessa pressão. Em um período de 12 meses, esses encargos consumiram mais de R$ 1 trilhão, desviando recursos que poderiam ser aplicados em bens e serviços produtivos e, ao mesmo tempo, gerando lucros expressivos para o setor financeiro.

Essa perspectiva, apresentada por três economistas consultadas pela Agência Brasil, questiona a visão predominante no jornalismo econômico, que frequentemente associa juros elevados à necessidade de conter gastos públicos e controlar a inflação. Para esses especialistas, a relação de causa e efeito seria inversa: os juros não são uma resposta à dívida, mas sim sua principal causa, com profundas implicações para a economia e a sociedade brasileira.

Juros: o verdadeiro motor da dívida pública?

A professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, destaca que o fator preponderante para o aumento da dívida pública no Brasil são os juros, e não os chamados gastos “primários”, que englobam despesas com funcionários e serviços essenciais à população. Segundo Furno, doutora em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é uma “hipocrisia” atribuir a elevação da dívida aos juros, quando estes são, na verdade, sua principal origem.

“Se você decompor os componentes da dívida pública, você vai ver que o déficit primário é o que menos impacta a dívida”, afirmou a economista, reforçando a ideia de que a estrutura atual favorece a acumulação de encargos financeiros. Nos últimos 12 meses até março, o Brasil desembolsou R$ 1,08 trilhão apenas com juros, um montante que corresponde a 8,35% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse valor é um dos principais responsáveis pelo crescimento da Dívida Bruta do Governo Central, que alcançou 80,1% do PIB (R$ 10,4 trilhões) em 2026, conforme dados do Banco Central.

O próprio Banco Central, em seu comunicado, aponta os juros nominais como o principal vetor desse aumento, contribuindo com 2,4 pontos percentuais para a elevação da dívida. Essa constatação reforça a argumentação dos economistas de que a política monetária, com suas altas taxas de juros, tem um impacto direto e significativo sobre o endividamento do Estado.

O debate macroeconômico: visões em confronto

A discussão sobre juros e dívida pública se intensificou no contexto do endividamento das famílias brasileiras, que levou ao lançamento do Novo Desenrola. O Brasil figura como o segundo país com os juros reais mais altos do mundo, atrás apenas da Rússia, o que reacende o debate sobre a pertinência dessa política.

Tradicionalmente, economistas e o próprio Banco Central (BC), por meio das atas do Comitê de Política Monetária (Copom), justificam as altas taxas de juros como uma reação à trajetória dos gastos públicos. A premissa é que o aumento das despesas estatais estimularia a demanda, pressionando a inflação para cima, e a solução seria o corte de gastos, o que, por sua vez, poderia comprometer serviços essenciais como saúde, educação e segurança, além de direitos previdenciários.

A ata do Copom do final de abril, por exemplo, reafirma que “o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros”. Essa visão consolida a ideia de que a austeridade fiscal é um pré-requisito para a redução dos juros.

Impacto social e a tese da oferta

Em contrapartida, a corrente de economistas que diverge dessa avaliação defende a proteção dos gastos públicos, argumentando que eles beneficiam as camadas mais vulneráveis da população. Para esses especialistas, os juros devem ser reduzidos, pois seu principal benefício recai sobre o mercado financeiro. A inflação, por sua vez, deveria ser combatida não apenas pela contenção da demanda, mas principalmente pelo estímulo à oferta e à produção.

A professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Mello de Malta, critica o modelo macroeconômico atual, que, segundo ela, é uma decisão política – e não técnica – que transforma o Brasil em uma “plataforma financeira”. “É condenar 210 milhões de pessoas a uma vida cara e endividada porque você quer beneficiar um setor que emprega tão pouco e que, enfim, já ganha bastante”, enfatizou Malta, ressaltando o custo social dessa escolha.

A professora da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, doutora em economia pela Universidade de Paris, corrobora essa visão, afirmando que a dívida pública cresce há muito tempo por causa dos juros. Ela reconhece que juros altos podem reduzir a inflação, mas alerta para os “altíssimos” custos sociais. “Quem está pagando esses juros altos são as pessoas que precisam do dinheiro para comer, morar, cuidar da sua saúde. E essas necessidades não podem diminuir”, pontuou Mollo, contrastando com os ganhos do mercado financeiro.

A lógica do Estado versus o setor privado

Maria Malta também faz uma distinção crucial entre a lógica financeira do Estado e a de uma família ou empresa. Ela argumenta que não é possível comparar o endividamento estatal com o privado, pois o Estado, ao contrário de indivíduos ou empresas, tem a prerrogativa de emitir sua própria moeda e definir sua taxa de juros. Essa capacidade confere ao governo uma flexibilidade que não existe no setor privado.

Para os economistas dessa corrente, se o objetivo é reduzir a dívida pública, o caminho mais eficaz é o corte dos juros, que representam a maior despesa do governo. Além disso, eles enfatizam que o gasto público possui um efeito multiplicador na economia, estimulando o crescimento e o emprego. “Gastar menos só tem um efeito: piorar o crescimento econômico, aumentar o desemprego e a dívida porque o lado da receita diminui quando o crescimento diminui”, explicou Malta, defendendo que o governo deve focar em proteger a população vulnerável e garantir o crescimento da capacidade produtiva da economia.

O Portal RJ99 continua acompanhando de perto os desdobramentos desse importante debate econômico, trazendo análises aprofundadas e contextualizadas para que você, leitor, compreenda as forças que moldam a economia brasileira e impactam seu dia a dia. Mantenha-se informado com a credibilidade e a variedade de temas que só o RJ99 oferece.

Leia mais

PUBLICIDADE