PUBLICIDADE

Boulos questiona compensação a empresas no debate sobre o fim da escala 6×1

apenas um de descanso. Setores empresariais também pedem que o fim da escala, co
Reprodução Agência Brasil

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, manifestou nesta quarta-feira (13) sua forte oposição à possibilidade de oferecer compensações econômicas a empresas como condição para a aprovação do fim da escala de trabalho 6×1. A proposta em discussão visa substituir o modelo atual, em que o empregado trabalha seis dias consecutivos para um de descanso, por uma jornada mais humana e com maior tempo de repouso.

A pauta, que também inclui a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, tem gerado intenso debate entre o governo, o Congresso Nacional e os setores empresariais. Enquanto o Executivo e parte do Legislativo buscam avançar na melhoria das condições de trabalho, empresários pleiteiam medidas compensatórias e uma implementação gradativa das novas regras.

O debate sobre a jornada de trabalho no Brasil

A escala 6×1, presente na realidade de milhões de trabalhadores brasileiros desde a fundação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), tornou-se um ponto central na discussão sobre a modernização das relações trabalhistas. Este modelo, que prevê seis dias de trabalho seguidos por apenas um de folga, é frequentemente criticado por especialistas e ativistas por seu impacto na qualidade de vida e na saúde mental dos empregados.

A proposta em análise na comissão especial da Câmara dos Deputados busca alterar a Constituição para garantir dois dias de descanso remunerado por semana, efetivando a escala 5×2, e reduzir a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Essa mudança representa um avanço significativo na busca por um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal dos trabalhadores, alinhando o Brasil a práticas mais comuns em economias desenvolvidas.

A crítica contundente de Guilherme Boulos

Durante uma audiência pública na comissão especial que analisa a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1, Guilherme Boulos foi enfático ao rejeitar a ideia de compensações financeiras para as empresas. Ele questionou a razoabilidade de tal medida, comparando-a a uma hipotética compensação para o setor privado em casos de aumento do salário mínimo.

“A gente tem visto um debate sobre compensações. Neste caso, gente, elas não são razoáveis. Alguém chegou a propor compensação para as empresas quando há aumento de salário mínimo no Brasil? Não, não seria razoável. Se alguém propusesse isso talvez fosse alvo de chacota”, afirmou Boulos. Ele citou um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que aponta um impacto econômico semelhante ao do aumento do salário mínimo, reforçando seu argumento contra o que chamou de “bolsa patrão”.

O ministro destacou o caráter humano da pauta, argumentando que a redução da jornada para proporcionar mais descanso aos trabalhadores não deveria ser partidarizada. Para Boulos, é inaceitável que o próprio trabalhador, por meio de seus impostos, tenha que financiar uma compensação para as empresas por uma medida que visa garantir dignidade e bem-estar. “Não tem razoabilidade”, concluiu.

A voz dos trabalhadores e a realidade da escala 6×1

A audiência pública contou também com o testemunho de Rick Azevedo, fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e vereador no Rio de Janeiro. Azevedo, que trabalhou por 12 anos em diferentes setores sob a escala 6×1, trouxe à tona a dura realidade enfrentada por milhões de brasileiros.

“Eu sei exatamente o que o trabalhador e a trabalhadora brasileira passam constantemente nessa escala desumana”, declarou Azevedo, que atuou em supermercados, farmácias, postos de gasolina, shoppings e call centers. Ele questionou como mães e pais de família, e jovens, conseguem ter dignidade e viver plenamente sob essas condições. “Por anos, passei não me sentindo gente, não me sentindo pertencente à sociedade, não sentia capaz”, desabafou o ativista, reconhecido por impulsionar o debate sobre o tema nos últimos anos.

Rick Azevedo também se alinhou à crítica de Boulos contra as compensações e a ideia de um período de transição prolongado. Para ele, o fim da escala 6×1 é uma pauta que já deveria ter sido concretizada, especialmente considerando que o debate público sobre o tema se intensificou desde 2023.

Caminhos legislativos e os pontos em aberto

Apesar das divergências, o governo e lideranças da Câmara dos Deputados já acordaram sobre a essência da mudança. A PEC do fim da escala 6×1 proporá uma alteração constitucional para prever o descanso remunerado de dois dias por semana (escala 5×2) e a redução da jornada semanal para 40 horas. Além da PEC, um projeto de lei (PL) com urgência constitucional, enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, será aprovado para agilizar a implementação e tratar de temas específicos de algumas categorias, ajustando a legislação atual à nova emenda constitucional.

Segundo o deputado federal Alencar Santana (PT-SP), presidente da comissão especial da PEC, os únicos pontos que ainda precisam ser definidos são justamente a questão das compensações para os empresários e a duração de um possível período de transição para a implantação das novas regras. A expectativa é que o debate continue intenso até que um consenso seja alcançado, equilibrando os interesses dos trabalhadores e do setor produtivo.

Para acompanhar os próximos capítulos deste importante debate sobre os direitos trabalhistas e outros temas relevantes para o Brasil, continue acessando o Portal RJ99. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e com a profundidade que você merece.

Leia mais

PUBLICIDADE