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Sisbajud reformulado: bloqueio automático e monitoramento contínuo intensificam cobrança judicial

© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Devedores com pendências na Justiça precisam redobrar a atenção a partir de agora. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) implementou um projeto-piloto que reformula o Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário (Sisbajud), a ferramenta essencial utilizada pela Justiça para localizar e bloquear valores de devedores em processos judiciais. A principal mudança trazida por essa atualização é a capacidade de realizar bloqueios no mesmo dia da decisão judicial, além de um monitoramento contínuo das contas por um período que pode se estender por até um ano.

Essa modernização representa um avanço significativo na agilidade dos processos de execução de dívidas no Brasil. Anteriormente, as instituições financeiras levavam, em média, de um a dois dias úteis para cumprir as ordens judiciais. Com o novo sistema, que entrou em operação na semana passada, o tempo de execução foi drasticamente reduzido para apenas duas horas após a decisão, com os tribunais enviando as ordens em duas janelas diárias: às 13h e às 20h. O objetivo é claro: tornar a recuperação de dívidas mais rápida e eficiente, coibindo a movimentação de recursos para contas de terceiros após a expedição da ordem judicial.

A nova era do Sisbajud: agilidade e monitoramento contínuo

O projeto-piloto do Sisbajud, que terá duração de 18 meses, começou a operar com a participação de cinco grandes instituições financeiras que firmaram acordo com o CNJ: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Nubank e XP Investimentos. A expectativa é que, após essa fase de testes, a medida seja expandida gradualmente para todo o sistema financeiro nacional, ampliando o alcance e a eficácia da ferramenta.

Além da notável redução no tempo de resposta, o novo sistema introduz uma mudança fundamental na duração dos bloqueios. Enquanto antes a restrição se aplicava apenas ao saldo disponível na conta no exato momento da ordem judicial, agora a determinação pode permanecer ativa por até um ano. Isso significa que quaisquer novos depósitos, sejam eles salários, transferências ou outros rendimentos recebidos pelo devedor, poderão ser retidos automaticamente até que o valor total da dívida seja alcançado. Essa funcionalidade, conhecida como “bloqueio permanente”, aumenta consideravelmente o poder de rastreamento do Judiciário sobre contas bancárias e aplicações financeiras.

A automatização da comunicação entre tribunais e instituições financeiras é a chave para essa agilidade. Ao eliminar etapas manuais e reduzir o tempo de resposta dos bancos para poucas horas, o CNJ busca não apenas acelerar a recuperação de créditos, mas também desestimular práticas de fraude à execução, onde devedores tentam ocultar bens ou transferir valores para evitar o cumprimento das obrigações.

Impacto direto para devedores e a proteção legal

Apesar da ampliação do poder de bloqueio, a legislação brasileira mantém salvaguardas importantes para proteger a subsistência dos devedores. Salários, aposentadorias, pensões e outros benefícios do INSS, bem como valores de até 40 salários mínimos mantidos em caderneta de poupança, continuam sendo protegidos por lei e, em tese, não podem ser bloqueados. Contudo, especialistas alertam que a agilidade do novo modelo exige uma reação ainda mais rápida do devedor caso verbas protegidas sejam atingidas indevidamente.

Em muitos casos de cobrança judicial, o bloqueio é determinado por meio de uma liminar, o que significa que o devedor não recebe aviso prévio da medida. Essa prática é autorizada pelo Código de Processo Civil justamente para impedir que o devedor tenha tempo de retirar ou transferir os recursos antes que a ordem judicial seja cumprida. Por essa razão, é comum que os devedores só tomem conhecimento do bloqueio ao tentar realizar operações cotidianas, como usar um cartão de crédito ou débito, o que reforça a necessidade de monitoramento constante de suas finanças e processos judiciais.

É importante ressaltar que a proteção legal não é absoluta. Existem exceções onde a Justiça pode autorizar bloqueios, como em dívidas de pensão alimentícia, empréstimos consignados ou ativos que excedam 50 salários mínimos. Além disso, em abril de 2023, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) admitiu a penhora parcial de salários mesmo abaixo do limite de 50 salários mínimos, desde que não comprometa a subsistência da família do devedor. Essa decisão adiciona uma camada de complexidade e exige uma análise jurídica cuidadosa em cada caso.

Medidas preventivas e como agir em caso de bloqueio

Diante das mudanças no Sisbajud, a proatividade se torna fundamental para os devedores. Após um bloqueio por liminar, o Código de Processo Civil determina a intimação do réu por um oficial de Justiça. A partir dessa intimação, o devedor tem um prazo de até cinco dias para entrar com uma ação revisional e solicitar o desbloqueio dos valores. Para isso, é crucial comprovar que o montante retido compromete sua sobrevivência ou que a restrição atingiu valores legalmente protegidos.

A agilidade do novo sistema, embora desafiadora, também pode ser uma vantagem, pois o devedor percebe o bloqueio mais rapidamente, o que, por sua vez, exige uma busca imediata por orientação jurídica. As recomendações dos especialistas incluem:

  • Acompanhar regularmente os processos judiciais vinculados ao seu CPF.
  • Manter comprovantes de renda, como holerites e extratos do INSS, e outras movimentações financeiras organizados.
  • Buscar orientação jurídica imediata em caso de qualquer bloqueio, reunindo documentos como extratos bancários, comprovantes de aposentadoria, recibos de aluguel e despesas essenciais.
  • Considerar a separação da conta-salário da conta utilizada para o dia a dia, se possível, para facilitar a identificação de valores protegidos.

É vital evitar a transferência de dinheiro para outras pessoas após tomar conhecimento de uma cobrança judicial, pois essa ação pode ser interpretada pela Justiça como fraude à execução, o que agrava significativamente a situação legal do devedor. A transparência e a busca por soluções legais são os caminhos mais seguros.

O futuro da cobrança judicial no Brasil

A reformulação do Sisbajud pelo CNJ marca um ponto de virada na forma como a Justiça lida com a recuperação de dívidas no Brasil. Ao automatizar e agilizar os bloqueios, o sistema busca não apenas eficiência, mas também fortalecer a credibilidade do Poder Judiciário na garantia do cumprimento das obrigações financeiras. A expansão gradual para todo o sistema financeiro promete um impacto ainda maior, consolidando um modelo mais robusto e eficaz para credores e, ao mesmo tempo, exigindo maior vigilância e preparo por parte dos devedores.

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