A seleção haitiana de futebol enfrentou um desafio inesperado antes mesmo de entrar em campo na Copa do Mundo de 2026. Dias antes de sua estreia no torneio, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) proibiu o uniforme original que o time usaria na competição. O motivo da controvérsia foi uma discreta ilustração na camisa, que a entidade máxima do futebol interpretou como uma declaração política, violando suas rigorosas regras sobre equipamentos.
A imagem em questão, posicionada perto do quadril direito do uniforme, retratava silhuetas de combatentes erguendo a bandeira do Haiti. Essa representação remete diretamente à Batalha de Vertières, o confronto decisivo de 1803 que selou a independência do país. Para a Fifa, a referência histórica, embora profundamente enraizada na identidade haitiana, poderia ser vista como um manifesto político, levando ao pedido de remoção do elemento.
O veto da Fifa e a interpretação de um símbolo
A decisão da Fifa gerou debate e levantou questões sobre a linha tênue entre a celebração da história nacional e a proibição de manifestações políticas no esporte. A fabricante da camisa, a colombiana Saeta, defendeu que o desenho nunca teve intenção política, mas sim o propósito de homenagear os homens e mulheres que contribuem para a construção do futuro do Haiti. A Federação Haitiana de Futebol, por sua vez, classificou a intervenção da Fifa como uma “má interpretação” em nota à imprensa americana.
Apesar das justificativas, nenhuma das partes entrou em conflito aberto com a entidade esportiva. A camisa foi prontamente alterada, e a versão revisada, sem a ilustração da Batalha de Vertières, já apareceu nas fotos oficiais da equipe antes do início do torneio. Foi com este novo uniforme que o Haiti fez sua estreia em 13 de junho, em Boston, sofrendo uma derrota por 1 a 0 para a Escócia.
Este não foi um incidente isolado para o Haiti. Meses antes, o Comitê Olímpico Internacional (COI) já havia vetado um elemento visual similar na delegação haitiana. Tratava-se de uma ilustração do revolucionário Toussaint Louverture, que estava prevista para o uniforme da cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina. A justificativa do COI foi a mesma: simbolismo político. Na ocasião, a estilista Stella Jean, responsável pelo uniforme olímpico, precisou pintar sobre a figura de Louverture, deixando apenas um cavalo em um fundo de folhagem tropical. A estilista chegou a comentar que o Haiti estava prestes a estabelecer um recorde de reprovações por parte das maiores autoridades esportivas internacionais em um curto período.
A Batalha de Vertières: marco da independência haitiana
Para muitos haitianos, a proibição da Fifa carregou um peso simbólico ainda maior devido a uma notável coincidência. A seleção garantiu sua vaga nesta Copa do Mundo em 18 de novembro de 2025, ao vencer a Nicarágua por 2 a 0 nas eliminatórias da Concacaf. Essa data é exatamente a mesma, 222 anos antes, da histórica Batalha de Vertières, vencida em 18 de novembro de 1803.
A Batalha de Vertières representou o desfecho de um processo revolucionário que teve início em agosto de 1791, quando pessoas escravizadas na colônia francesa de Saint-Domingue se revoltaram contra os senhores de engenho. Essa rebelião se tornaria a única revolta de escravizados na história a culminar na fundação de um país independente. Em menos de dois anos, os revoltosos forçaram a França a abolir a escravidão no território, décadas antes da maioria do mundo ocidental. O conflito escalou para uma guerra de independência quando Napoleão Bonaparte tentou reverter a abolição e retomar o controle da colônia em 1802.
A resistência, liderada por Jean-Jacques Dessalines, cercou as últimas tropas francesas em Cap-Français (atual Cap-Haïtien). A batalha decisiva ocorreu em 18 de novembro de 1803, no Forte de Vertières. Um dos episódios mais célebres envolveu o general François Capois, que, mesmo após seu cavalo ser atingido, levantou-se e continuou a avançar sob fogo intenso, gritando para seus soldados. Impressionado, o próprio general francês Donatien de Rochambeau teria ordenado um cessar-fogo temporário para saudar a bravura de Capois, que ficou conhecido como “Capois-la-Mort” (“Capois, a Morte”). Derrotado, Rochambeau negociou a rendição no dia seguinte.
Em 1º de janeiro de 1804, menos de dois meses após a batalha, o Haiti declarou sua independência, tornando-se a segunda nação independente das Américas, depois dos Estados Unidos. Dessalines foi o primeiro chefe de Estado do país. Até hoje, 18 de novembro é celebrado no Haiti como o Dia das Forças Armadas, em homenagem a essa vitória histórica.
Contexto de fragilidade: o Haiti em meio à violência e a paixão pelo futebol
A participação da seleção haitiana nesta Copa do Mundo ocorre em um contexto de extrema fragilidade social e política no país. Segundo estimativas das Nações Unidas, gangues armadas controlam entre 80% e 90% da capital, Porto Príncipe, incluindo a região onde se localiza o Stade Sylvio Cator, principal estádio do país e palco da seleção por décadas. O Sylvio Cator, que já abrigou campanhas para a única outra participação do Haiti em uma Copa do Mundo (1974), hoje funciona como abrigo para moradores que fogem da violência nos arredores, após ter sido invadido e ocupado por gangues em março de 2024.
A equipe nacional não joga em solo haitiano desde 2021, ano marcado pelo assassinato do então presidente Jovenel Moïse, que abriu um vácuo de poder explorado por grupos armados. O centro de treinamento da seleção, conhecido como Centro de Goal da Fifa, em Croix-des-Bouquets, também foi tomado por uma gangue e teve parte de suas instalações incendiadas em confrontos recentes. Sem condições de treinar ou jogar em casa, a seleção tem se preparado fora do país, passando por Flórida, Nova Jersey e Curaçao, onde garantiu a vaga inédita em 52 anos.
Apesar de todas as adversidades, a paixão pelo futebol permanece viva. Um dos gols daquela noite histórica em Curaçao, que selou a classificação, saiu dos pés de Louicius Deedson, hoje jogador do FC Dallas. Ele descreveu à CNN a euforia nas ruas de Porto Príncipe como algo que o país não vivia há muito tempo. Mesmo o técnico francês da seleção não pôde viajar até o Haiti para acompanhar os treinos, evidenciando a gravidade da situação. A proibição da camisa, portanto, adiciona uma camada de complexidade a uma jornada já repleta de desafios e simbolismos para a nação caribenha.
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