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PIX brasileiro: a ferramenta que desafia o controle financeiro dos EUA

PIX brasileiro: a ferramenta que desafia o controle financeiro dos EUA
© Bruno Peres/Agência Brasil

O sistema de pagamentos instantâneos Pix, desenvolvido no Brasil, emergiu como um ponto de atrito nas relações econômicas e geopolíticas com os Estados Unidos. Especialistas em economia e relações internacionais apontam que o modelo brasileiro é visto por Washington como um desafio direto ao seu controle sobre a infraestrutura de pagamentos eletrônicos no país. Essa percepção teria motivado a inclusão do Pix entre as justificativas para o “tarifaço” de 25% imposto pelo governo de Donald Trump.

A tensão, segundo analistas, transcende a mera concorrência econômica com empresas americanas como Visa, MasterCard ou WhatsApp Pay. A questão central reside na geopolítica e na manutenção da influência dos EUA sobre o sistema financeiro global, um poder que o Pix, por sua natureza e sucesso, parece minar.

A geopolítica por trás do “tarifaço” americano

A inclusão do Pix nas justificativas para as tarifas americanas revela uma preocupação mais profunda dos Estados Unidos com a perda de poder e controle sobre o sistema financeiro de outras nações. O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, enfatiza que essa medida demonstra a relutância dos EUA em ceder sua hegemonia financeira.

“Esse tipo de medida deixa evidente que os EUA não querem perder esse poder que eles têm hoje sobre o sistema financeiro em boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela tem sistemas próprios, e isso tem a ver com uma maior soberania e autonomia desse país”, afirmou Silva, contextualizando a situação brasileira em um cenário global de busca por autonomia financeira.

Apesar da retórica de concorrência, o Pix trouxe benefícios econômicos que, indiretamente, também favoreceram empresas americanas. O professor Maicon Cláudio da Silva lembra que o sistema aumentou significativamente a bancarização da população brasileira, expandindo o universo de transações financeiras formais.

“Movimentos econômicos que antes ocorriam só no dinheiro passaram a ocorrer via sistema financeiro, através do Pix. Isso facilita o acesso das pessoas a contas bancárias e, eventualmente, também a cartão de crédito”, explicou. Em 2025, os cartões de crédito e débito movimentaram R$ 4,5 trilhões, um crescimento de 10,1%, impulsionado pela expansão do Pix, conforme dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

Pix: um motor de soberania e inclusão financeira

O Pix não é apenas uma ferramenta de pagamentos; ele se consolidou como um instrumento de poder para o Brasil, fortalecendo a soberania econômica e financeira do país. O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, ressalta que o sistema permite ao Brasil maior autonomia em suas transações.

“Ao aumentar a autonomia e a soberania do país, o Brasil promove o comércio exterior bilateral com outros países em moedas nacionais, fugindo da arbitragem e da senhoriagem [receita oriunda da emissão de moeda] do dólar”, comentou Carmona. A “senhoriagem” do dólar refere-se ao benefício econômico que os EUA obtêm por sua moeda ser a principal reserva e meio de troca internacional, permitindo-lhes financiar déficits e exercer influência monetária global.

Além de fortalecer a posição brasileira, o Banco Central do Brasil tem atuado ativamente na diplomacia financeira, estabelecendo acordos de cooperação técnica com 47 países para a implementação de sistemas semelhantes ao Pix. Essa iniciativa pode fragilizar ainda mais o controle de Washington sobre as transações financeiras em diversas partes do mundo, criando uma rede de sistemas de pagamentos nacionais interconectados e menos dependentes de intermediários estrangeiros.

O Pix e a limitação das sanções econômicas

Uma das preocupações centrais dos EUA com o avanço de sistemas de pagamentos nacionais como o Pix reside na sua capacidade de limitar a aplicação de sanções econômicas. “Sistemas de pagamentos nacionais, como o Pix, limitam a aplicação de sanções econômicas dos EUA contra instituições e indivíduos, diferentemente do que ocorre com sistemas americanos”, explicou Ronaldo Carmona.

Isso ocorre porque os sistemas de pagamento com sede nos EUA são legalmente obrigados a cumprir as sanções impostas pela Casa Branca, o que lhes confere um poder significativo de projeção de força. Maicon Cláudio da Silva exemplificou essa dinâmica citando as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o bloqueio econômico a Cuba.

“O avanço do bloqueio econômico dos EUA contra Cuba acabou levando a Visa e a Mastercard a deixar de operar na ilha. Ao controlar os meios de pagamento, os EUA podem, a qualquer momento, tomar algum tipo de sanção econômica contra países ou indivíduos”, detalhou Silva, sublinhando a importância estratégica de ter um sistema de pagamentos independente.

Europa busca autonomia e o futuro dos pagamentos globais

A busca por soberania financeira não é uma exclusividade brasileira. A revista inglesa The Economist, em artigo publicado antes do anúncio do tarifaço contra o Brasil, já apontava que o Pix, juntamente com iniciativas da União Europeia (UE), ameaça a “supremacia” financeira dos EUA. A revista especializada em finanças globais destacou que “a ascensão de sistemas ‘soberanos’, especialmente na Europa – uma grande fonte dos negócios internacionais da Visa e da Mastercard –, poderia corroer suas invejáveis margens operacionais de mais de 50%“.

Recentemente, a UE anunciou o Euro Digital, um sistema de pagamentos eletrônicos semelhante ao Pix, de acesso gratuito e público, com previsão de lançamento do projeto-piloto em 2027. A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, foi explícita sobre os objetivos da iniciativa: “Dependemos predominantemente das redes americanas, mas também, por vezes, das chinesas, para organizar os pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos internamente”, afirmou ao portal Euronews, reforçando a tendência global de redução da dependência de sistemas financeiros estrangeiros.

Impactos e desdobramentos para o comércio bilateral

Do ponto de vista econômico imediato, o “tarifaço” imposto pelos EUA tende a prejudicar mais as próprias empresas americanas, dado o superávit comercial que Washington mantém com o Brasil. Essa observação, feita pelo professor Maicon Cláudio da Silva, sugere que os interesses econômicos imediatos podem ser secundários em face de objetivos geopolíticos mais amplos.

“Do ponto de vista imediato, essas taxas acabam prejudicando mais os EUA. Por isso, essa é uma política econômica internacional focada em exercer poder por meio das sanções e tarifaços de maneira a pressionar os países a se submeterem aos EUA”, concluiu Silva, indicando que a medida é uma ferramenta de pressão política e econômica. O Brasil, por sua vez, tem afirmado que não deixará de negociar as tarifas impostas e estuda a adoção de uma Lei de Reciprocidade, o que poderia escalar ainda mais a tensão comercial.

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