A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, ApexBrasil, anunciou nesta terça-feira (11) um plano estratégico de apoio financeiro e técnico às empresas brasileiras. A iniciativa, que destina R$ 210 milhões, visa auxiliar companhias de 35 setores a diversificar seus mercados de exportação, mitigando os impactos das recentes tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos. O objetivo principal é reduzir a dependência do mercado norte-americano e fortalecer a presença brasileira em outras economias globais.
A medida surge em um momento crucial, onde as relações comerciais com os EUA enfrentam novos desafios. Com um programa de 12 meses de duração, a ApexBrasil planeja atender cerca de 5,3 mil das 5,6 mil empresas que foram diretamente afetadas pelas novas barreiras comerciais. Este suporte não se configura como um empréstimo, o que significa que as empresas beneficiadas não terão que arcar com juros ou taxas sobre os recursos recebidos, tornando o auxílio ainda mais atrativo e eficaz para a recuperação e expansão.
Plano de Diversificação e Apoio Financeiro
O montante de R$ 210 milhões será direcionado para cobrir diversas despesas essenciais no processo de internacionalização e busca por novos mercados. Entre as ações que poderão ser custeadas estão consultorias especializadas, que oferecem expertise em estratégias de exportação e adaptação a diferentes cenários comerciais. Além disso, o plano prevê o financiamento de bolsas de exportação, participação em feiras internacionais de grande relevância e a organização de reuniões de negócios estratégicas, facilitando o contato e a negociação com potenciais compradores e parceiros em outras nações.
A iniciativa da ApexBrasil é um reflexo da necessidade de adaptação e resiliência das empresas brasileiras diante das flutuações do comércio internacional. Ao invés de focar apenas na superação das dificuldades imediatas, o programa busca capacitar as empresas para uma atuação mais robusta e diversificada a longo prazo, garantindo maior estabilidade e oportunidades de crescimento em um cenário global cada vez mais competitivo e interconectado.
Inscrições e Objetivos Estratégicos
As empresas interessadas em obter o apoio da ApexBrasil podem se inscrever a partir desta quarta-feira (12) através do site oficial da agência. O processo de cadastro exige que as companhias informem dados detalhados sobre suas operações de exportação e os objetivos específicos que pretendem alcançar com o auxílio. A análise das solicitações será feita de forma individualizada, permitindo que cada caso receba um suporte personalizado e alinhado às suas necessidades e potencialidades.
Os principais objetivos delineados pela ApexBrasil para este programa são multifacetados e visam uma abordagem abrangente. Eles incluem o apoio direto a setores e empresas exportadoras impactadas pelas tarifas, a diversificação de mercados para exportação, a manutenção da promoção comercial no mercado americano – reconhecendo sua importância contínua, mesmo com a busca por novas rotas – e a isenção de taxa de participação em ações diretas para as empresas que foram afetadas. Esses pilares estratégicos buscam não apenas remediar, mas também fortalecer a estrutura exportadora do país.
Expansão Global e Novos Horizontes
Segundo Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil, a visão por trás do plano vai além da simples recuperação financeira. “O objetivo não é recuperar os R$ 210 milhões, mas preparar as empresas brasileiras para exportar”, afirmou Müller em entrevista exclusiva ao g1. Essa declaração sublinha o caráter de investimento a longo prazo da iniciativa, focada na capacitação e no desenvolvimento sustentável das exportações nacionais.
A agência já identificou uma série de mercados promissores para a diversificação das exportações brasileiras. Entre os destinos apontados como potenciais estão Canadá, México, Alemanha, Turquia, África do Sul, Nigéria, Etiópia, Indonésia, Singapura, Índia e China. Para reforçar essa estratégia de ampliação, Müller anunciou a abertura de um novo escritório em Adis Abeba, na Etiópia, a partir de 2 de setembro. Este escritório terá a missão de trabalhar comercialmente os mercados africanos e asiáticos, abrindo portas para produtos brasileiros em regiões com alto potencial de crescimento.
Ao abordar a estratégia para a Ásia, o presidente da ApexBrasil destacou a importância do interior da China, diferenciando-o da região litorânea, que já possui um comércio mais consolidado. No entanto, o foco principal para o continente asiático recai sobre os países da ASEAN, um bloco econômico que inclui Malásia, Indonésia, Vietnã e Singapura, reconhecidos por seu dinamismo e oportunidades de negócios. A agência também revelou que 72% das 2,4 mil empresas já atendidas e que exportam para os EUA já possuem vendas para pelo menos um mercado adicional, demonstrando a viabilidade da estratégia de diversificação.
O Cenário das Novas Tarifas Americanas
As medidas da ApexBrasil são uma resposta direta ao “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos, que introduziu duas novas categorias de tarifas sobre produtos brasileiros. A primeira é uma tarifa de 25%, aplicada após uma investigação que alegou supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil. A segunda é uma sobretaxa de 12,5%, que incide sobre produtos de mais de 60 parceiros comerciais americanos, relacionada a preocupações com o uso de trabalho forçado na cadeia de produção.
Quando ambas as tarifas são aplicadas a um mesmo produto, a sobretaxa combinada pode atingir um patamar significativo de 37,5%, impactando severamente a competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que 23,1% das exportações brasileiras para os EUA estão sujeitas a essas novas sobretaxas. Adicionalmente, outros 24,2% são afetados por tarifas setoriais previstas na Seção 232 da legislação americana, que aborda questões de segurança nacional.
Apesar do cenário desafiador, é importante notar que, com as listas de exceções determinadas pelos EUA, pouco mais da metade das exportações brasileiras para o país – 52,7%, considerando os dados de 2024 utilizados pelo MDIC – não está sujeita às novas sobretaxas das Seções 301 nem às tarifas setoriais da Seção 232. Produtos como café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, diversos produtos químicos e a maior parte das exportações de celulose estão entre os que não foram afetados. Essa distinção ajuda a explicar por que a estratégia da ApexBrasil não é substituir o mercado americano por completo, mas sim reduzir a dependência excessiva e buscar um equilíbrio mais saudável na balança comercial.
Perda de Participação dos EUA nas Exportações Brasileiras
O anúncio do plano de diversificação da ApexBrasil chega em um momento em que os Estados Unidos vêm perdendo participação nas exportações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou US$ 17,4 bilhões para o mercado americano, o que representa uma queda de 13% em comparação com o mesmo período de 2025. Consequentemente, a fatia dos EUA nas vendas externas brasileiras diminuiu de 12,1% para 9,4%.
Essa tendência de declínio não é recente. Em 2025, as exportações brasileiras para os americanos já haviam recuado para US$ 37,7 bilhões, após atingirem um recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024. Enquanto as vendas para os Estados Unidos mostram essa retração, a China tem mantido uma posição de muito maior relevância como principal destino das exportações brasileiras, consolidando-se como um parceiro comercial estratégico e fundamental para a economia do país.
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