A paixão nacional pelo futebol, especialmente em um evento grandioso como a Copa do Mundo, pode se transformar em um terreno fértil para a manipulação e a exposição excessiva da população às empresas de apostas online, as chamadas bets. O alerta vem do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), que manifesta profunda preocupação com os impactos negativos da crescente popularidade dessas plataformas no Brasil, especialmente com a proximidade da Copa do Mundo de 2026.
Segundo o Idec, “eventos esportivos de grande mobilização emocional tendem a ampliar significativamente a exposição da população à publicidade de bets, atingindo não apenas apostadores habituais, mas também consumidores ocasionais e pessoas em situação de vulnerabilidade”. Essa observação ganha ainda mais relevância diante dos resultados de uma pesquisa recente da Softswiss, uma multinacional de tecnologia para jogos online, que projeta um aumento substancial no volume de apostas para o próximo mundial.
Crescimento exponencial do mercado de apostas esportivas
A pesquisa da Softswiss aponta que a Copa do Mundo de 2026 pode impulsionar em pelo menos 50% o volume global de apostas esportivas, em comparação com a edição de 2022. Financeiramente, isso significa que o mercado, que movimentou cerca de US$ 35 bilhões há quatro anos, tem potencial para atingir a marca de US$ 52 bilhões. Alexander Kamenetsky, diretor de Operações da Softswiss, atribui esse crescimento a fatores como o formato ampliado do torneio, o avanço dos mercados regulamentados, as melhorias na experiência de apostas móveis e a capacidade única da Copa do Mundo de atrair apostadores de todos os perfis.
A Federação Internacional de Futebol (Fifa) expandiu o formato do campeonato para 2026, passando de 32 para 48 equipes e de 64 para 104 partidas, o que naturalmente amplia as oportunidades e o tempo de exposição às apostas. No cenário brasileiro, as estimativas do setor indicam que os apostadores do país podem ser responsáveis por aproximadamente 10% do volume global, uma participação que tende a crescer ainda mais caso a seleção brasileira avance para as fases decisivas da competição.
Dados do Placar das Bets, uma plataforma de monitoramento do mercado de apostas da empresa Klavi, reforçam essa tendência. Utilizando informações do sistema financeiro (Open Finance), o Placar revela que, desde 9 de junho, os brasileiros já gastaram cerca de R$ 530,21 milhões em casas de apostas. O valor médio gasto por apostador, que era de R$ 188 antes do início do evento, subiu para R$ 242 até o dia 25 de junho, indicando um aumento significativo no engajamento financeiro dos consumidores.
Os alertas do Idec e os impactos sociais e de saúde pública
Para o Idec, o cenário de crescimento das apostas esportivas, longe de ser positivo, acentua as preocupações com os efeitos adversos da expansão das bets no Brasil, que foram legalizadas em 2018 e regulamentadas em 2023. O instituto considera essa prática “altamente nociva às pessoas consumidoras” e alerta para “impactos sociais e de saúde pública”, defendendo que o Supremo Tribunal Federal (STF) deveria declarar a inconstitucionalidade das leis que permitiram os jogos e apostas online.
Enquanto a questão jurídica não é resolvida, o Idec argumenta que as regras atuais para a publicidade de apostas esportivas são “insuficientes para proteger adequadamente a população consumidora”. A naturalização crescente das apostas, impulsionada por campanhas massivas e pela atuação de influenciadores digitais, atletas, clubes e plataformas, apresenta o jogo como um mero entretenimento, divertido e potencialmente lucrativo. Essa abordagem, no entanto, minimiza os riscos econômicos e psicológicos, que incluem “superendividamento, perda de renda, comprometimento do mínimo existencial e impactos relevantes à saúde mental”, conforme o instituto.
A ilusão de controle e a instrumentalização da paixão pelo futebol
Ahmed El Khatib, doutor em finanças e educação e professor da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), corrobora a tese de que a conexão emocional com o futebol e outros esportes está sendo instrumentalizada para incentivar as apostas. Ele destaca que cada partida gera centenas de combinações distintas para apostas, desde o resultado final até o número de cartões, escanteios e faltas, multiplicando exponencialmente o volume de dinheiro movimentado.
Sob uma ótica comportamental, grandes eventos esportivos despertam emoções intensas, levando pessoas que normalmente não apostam a fazê-lo. A facilidade de apostar a qualquer hora e em qualquer lugar, por meio de celulares, amplifica esse fenômeno. O professor explica que o maior desejo de apostar durante eventos de grande projeção é um tema amplamente estudado academicamente, com a cobertura da mídia e as campanhas publicitárias contribuindo para uma excitação coletiva que pode reduzir os freios racionais e expor os torcedores à “ilusão de controle”. As pessoas superestimam suas capacidades de prever resultados, esquecendo que se trata de um jogo de azar.
Os impactos financeiros são alarmantes. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que, de janeiro a março de 2023, a inadimplência dos consumidores atribuída a gastos com jogos e apostas desviou R$ 143 bilhões do comércio varejista. El Khatib ressalta que, diferentemente do consumo tradicional, grande parte do dinheiro captado pelas bets não financia bens de produção ou serviços, mas sim uma redistribuição de riqueza entre os próprios apostadores. Embora o setor represente uma nova fonte de recursos tributários e beneficie o setor financeiro e de infraestrutura tecnológica, patrocinando clubes e campeonatos, os custos sociais e individuais são significativos.
Caminhos para uma regulamentação responsável e proteção ao consumidor
Diante desse cenário, o professor Ahmed El Khatib defende que a questão não é mais proibir as apostas, mas sim “construir um ambiente regulado e responsável”, visando reduzir os danos associados ao comportamento compulsivo, de forma similar à regulamentação de álcool e cigarro. Para isso, ele propõe uma série de medidas:
- Realização de campanhas permanentes de educação financeira e esclarecimento sobre os mecanismos dos jogos de apostas.
- Estipulação de limites para proteger os apostadores.
- Regras mais rígidas para a publicidade, proibindo promessas de enriquecimento.
- Obrigação para as empresas de apostas utilizarem inteligência artificial para monitorar o comportamento dos apostadores, identificar compulsivos e suspender o acesso automaticamente.
- Criação de grupos de apoio permanente a grupos vulneráveis.
- Maior transparência das plataformas, que deveriam informar a possibilidade real de ganhos em curto e médio prazos.
El Khatib conclui que a prevenção é mais eficaz e menos custosa em termos de saúde pública do que o tratamento das pessoas já afetadas. A Agência Brasil tentou contato com a Associação de Bets e Fantasy Sport (Abfs), mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem, reforçando a necessidade de um diálogo amplo e transparente sobre o tema.
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