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Cordel brasileiro em festa: Fortaleza recebe a sétima edição da feira gratuita

© Agência Brasil/Arquivo
© Agência Brasil/Arquivo

A capital cearense, Fortaleza, se prepara para receber um dos mais importantes eventos dedicados à cultura popular brasileira. A sétima Feira do Cordel Brasileiro terá início neste sábado, dia 20, na Caixa Cultural, prometendo uma imersão gratuita e diversificada no universo da literatura de cordel. O evento, que se estende até 28 de junho, reunirá poetas, cordelistas, músicos e pesquisadores, celebrando uma das mais autênticas manifestações artísticas do país.

A iniciativa busca não apenas preservar, mas também revitalizar a tradição do cordel, conectando novas gerações a essa forma de expressão que é Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Com uma programação rica em shows, exposições e oficinas, a feira se estabelece como um ponto de encontro para admiradores e curiosos, reforçando a relevância cultural e social dessa arte narrativa.

A tradição do cordel e sua importância cultural

A literatura de cordel, com suas raízes profundas na tradição oral e nas expressões como o repente, a cantoria e a embolada, é um pilar da identidade cultural do Nordeste brasileiro. Nascida da fusão de narrativas medievais europeias com a oralidade popular, ela se consolidou como um veículo de informação, entretenimento e crítica social, distribuída em folhetos pendurados em cordas – daí o nome “cordel”. Estados como Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia são berços dessa arte, onde as histórias de heróis, vilões, causos e lendas são contadas em versos rimados e metrificados.

Essa forma de arte não se limita apenas à palavra escrita; ela é intrinsecamente ligada à xilogravura, técnica de ilustração que confere aos folhetos sua estética inconfundível. A simplicidade e a profundidade de suas narrativas, aliadas à acessibilidade de seus formatos, permitiram que o cordel se tornasse um meio de comunicação popular por excelência, educando e divertindo gerações e mantendo viva a memória e os costumes de um povo.

Klévisson Viana e a visão de futuro do cordel brasileiro

À frente da organização da Feira do Cordel Brasileiro há uma década, está Klévisson Viana, um nome que personifica a continuidade e a renovação dessa tradição. Bisneto, neto e filho de poetas, Klévisson carrega em seu DNA a arte de contar histórias em versos, sendo um dos mais respeitados cordelistas da atualidade. Sua visão para a feira transcende a mera celebração do passado; ele busca um equilíbrio entre a reverência à tradição e a abertura para a modernidade.

“A nossa feira está sempre um passo à frente, é sempre um pé na tradição e um pé na modernidade”, explica Viana. Essa filosofia se reflete na dinâmica do evento, onde artistas de diferentes gerações dividem o mesmo palco, promovendo um intercâmbio valioso. O objetivo é claro: mostrar a crianças e adolescentes que a cultura popular é vibrante e relevante para todas as idades, desmistificando a ideia de que é algo restrito a um público mais velho. Essa abordagem garante que o cordel continue a evoluir, sem perder sua essência.

Destaques da programação: arte, música e debate

A sétima edição da Feira do Cordel Brasileiro oferece uma programação vasta e cativante, pensada para todos os públicos. Entre os destaques do primeiro fim de semana, o público poderá conferir o espetáculo “Eu parece que tô vendo”, do renomado artista paraibano Jessier Quirino, conhecido por sua capacidade de mesclar humor e poesia regional. A abertura oficial do evento, marcada para o dia 25 de junho, promete ser um dos pontos altos, com recitais, shows e cantorias de grandes nomes da poesia popular.

Nomes como Ivanildo Vilanova, Jonas Bezerra, o Mestre Geraldo Amâncio e Chico Pedrosa estão confirmados para encantar a plateia com suas rimas e improvisos. Além das apresentações musicais e poéticas, a feira oferece uma série de oficinas gratuitas, incluindo desenho, xilogravura e, claro, a arte de criar cordéis, permitindo que os participantes experimentem na prática o processo criativo. A programação se completa com o forró contagiante de Cacimba de Aluá e as performances do Teatro de Bonecos da Cia Calunga de Teatro, garantindo diversão e aprendizado para todas as idades.

O cordel como resistência à inteligência artificial

Em um cenário global cada vez mais dominado pela tecnologia e pela inteligência artificial (IA), Klévisson Viana levanta um ponto crucial sobre o valor intrínseco da criação humana. Para ele, o cordel, com sua autenticidade e profundidade emocional, representa uma forma de resistência à pasteurização cultural que a IA pode promover. “Um texto feito pela IA, por mais primorosa que a IA chegue no patamar e que consiga realmente fazer algo bom, ela não vai ter esse tempero, essas minudências, esse sotaque, essa maneira de se expressar que a sua alma tem”, argumenta o cordelista.

Essa perspectiva ressalta a importância de valorizar a singularidade da expressão artística humana, que carrega consigo a vivência, o sentimento e a identidade cultural de seu criador. O cordel, nesse sentido, não é apenas uma forma literária antiga, mas um testemunho vivo da capacidade humana de criar narrativas que ressoam com a alma, algo que a inteligência artificial, por mais avançada que seja, ainda não consegue replicar em sua plenitude. É um convite à reflexão sobre o papel da arte genuína em um mundo cada vez mais digitalizado.

Expansão nacional e acesso à cultura

A Feira do Cordel Brasileiro demonstra seu alcance e relevância ao se expandir para além das fronteiras do Ceará. Neste ano, o evento já marcou presença em Salvador, na Bahia, levando a riqueza do cordel para um público mais amplo. Após a etapa em Fortaleza, a feira tem planos de seguir para outras importantes capitais brasileiras, como Brasília e São Paulo, consolidando-se como um projeto de difusão cultural de alcance nacional.

Essa itinerância é fundamental para democratizar o acesso à literatura de cordel e para fortalecer o reconhecimento dessa arte como um patrimônio de todos os brasileiros. A gratuidade de toda a programação, conforme destacado por Klévisson Viana, é um fator chave para garantir que barreiras financeiras não impeçam a participação do público. Todas as informações detalhadas sobre os horários e locais das atividades podem ser encontradas no site oficial da Caixa Cultural, facilitando o planejamento dos interessados em mergulhar nesse universo poético.

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