A Federação Internacional de Futebol (FIFA) tenta, em meio a uma crescente crise de governança, abafar as chamas de uma polêmica que coloca em xeque a liderança de seu presidente, Gianni Infantino. Após o vazamento de um controverso projeto de investimentos privados, a entidade reconheceu “erros” na última quarta-feira, mas reiterou seu “apoio total” a Infantino. Contudo, essa tentativa de controle de danos parece não ter convencido a imprensa europeia, que continua a questionar a transparência e o estilo de gestão do dirigente.
A situação foi descrita pelo jornal Le Monde como um cenário onde Infantino “se agarra ao seu trono na FIFA”. Em um comunicado divulgado após uma reunião em Rabat, no Marrocos, e enviado ao Conselho da instituição e às 211 federações nacionais membros, a FIFA expressou “sinceras desculpas por esses erros” e prometeu não repeti-los. No entanto, a mesma nota continha uma advertência velada aos meios de comunicação internacionais que, há dias, denunciam o que consideram um estilo de governança solitário do presidente.
O Projeto de Investimentos Privados e a Quebra de Confiança
O epicentro da crise reside no vazamento de um projeto que propunha abrir as competições internacionais a investidores privados. Essa iniciativa gerou duras críticas por parte das federações regionais de futebol, que se sentiram alheias à decisão. Para muitos observadores, o episódio expõe uma administração opaca, distante das promessas de transparência feitas por Infantino quando assumiu o comando da instituição em 2016.
A FIFA, em seu comunicado, foi enfática ao afirmar que “não tolerará mais qualquer ataque à sua integridade, à sua boa governança e ao respeito de seus procedimentos”. O texto ainda ameaça tomar “todas as medidas necessárias para proteger e preservar seu nome e reputação”, em uma postura que alguns veículos, como o Le Monde, compararam a uma “atmosfera digna de uma obra de George Orwell”, sugerindo uma tentativa de controlar a narrativa e silenciar críticas.
Imprensa Europeia Questiona Liderança e Transparência
A reação dos principais jornais europeus tem sido unânime em sua crítica à gestão de Infantino. O Le Parisien, por exemplo, destacou que o apoio institucional da FIFA não foi suficiente para dissipar o isolamento do presidente. O diário sublinhou que a crise evidencia uma administração que falha em cumprir as promessas de clareza e abertura feitas no início de seu mandato.
Já o Le Figaro foi ainda mais incisivo, afirmando que Infantino está “à beira de um precipício”. De um presidente outrora considerado todo-poderoso, ele passou a ser visto como um pária. Apesar da gravidade da situação, a hipótese de uma demissão, por enquanto, permanece em segundo plano, com o foco voltado para os próximos passos da entidade e a capacidade de Infantino de reverter a percepção negativa.
Críticas de Vultos do Esporte e da Política Ampliam Pressão
O coro de críticas a Infantino não se limita à imprensa e às federações. Vultos importantes do esporte e da política global também se manifestaram. O ex-craque português Luís Figo, em coluna de opinião no jornal britânico Daily Mail na quarta-feira, declarou que “Infantino deve sair”, descrevendo o dirigente como um “vestígio do passado que não deve fazer parte do futuro”.
Na terça-feira, o príncipe Ali bin Al-Hussein, presidente da Federação Jordaniana de Futebol, acusou Infantino de “chantagem”. Fora do universo do futebol, a pressão também aumentou. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, juntou-se ao premiê britânico, Andy Burnham, para criticar duramente o presidente da FIFA. Carney, cujo país será um dos anfitriões da Copa do Mundo de 2026, ao lado de Estados Unidos e México, afirmou: “Sem dúvida, diante do que aconteceu, já não tenho mais confiança no senhor Infantino”. Para ele, a falta de consulta à equipe diretiva da FIFA sobre o plano de privatização “deveria ser fatal” para o mandato do presidente. Na semana anterior, Burnham já havia declarado que o dirigente suíço-italiano era “a pessoa errada para dirigir” o órgão máximo do futebol mundial.
O Caminho Incerto para a Reeleição de Infantino na FIFA
Apesar da turbulência, Gianni Infantino, de 56 anos, é, até o momento, o único candidato declarado à reeleição para o comando da FIFA. A votação está marcada para março de 2027, também no Marrocos. Para conquistar um novo e último mandato de quatro anos, o ítalo-suíço precisará da maioria das 211 federações-membro.
No entanto, o cenário político interno da FIFA mostra sinais de desgaste. Algumas federações europeias, como as da Finlândia, do País de Gales, da Sérvia e da Suécia, já retiraram oficialmente seu apoio a Infantino. A foto de 12 de fevereiro de 2026, em Bruxelas, na Bélgica, que acompanha a notícia, mostra o presidente em um momento de discurso, simbolizando a posição de liderança que agora se vê sob intenso escrutínio. A capacidade de Infantino de reverter essa onda de desconfiança será crucial para seu futuro na liderança do futebol mundial.
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