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Etanol brasileiro: tarifa dos EUA tem impacto limitado e revela jogo político

Etanol brasileiro: tarifa dos EUA tem impacto limitado e revela jogo político
© Arquivo/26.07.2012/Tânia Rêgo/Agência Brasil

A imposição de uma tarifa adicional de 25% pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro, embora cause impactos pontuais em algumas empresas exportadoras, tende a ter um efeito limitado sobre a economia do Brasil como um todo. Especialistas consultados pela Agência Brasil avaliam que a medida possui um forte componente político, surgindo em um momento em que o mercado norte-americano já representa menos de 16% do volume total de etanol exportado pelo país.

Essa análise sugere que a maior parte das vendas externas do biocombustível brasileiro já se destina a outros compradores internacionais. Apesar de os EUA ainda serem o segundo principal destino do etanol do Brasil, sua participação tem diminuído consistentemente ao longo dos anos, minimizando o impacto de tais barreiras comerciais.

Cenário das exportações e a participação dos EUA

A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras de etanol já apresentava uma trajetória de queda há anos, tornando o peso da nova tarifa relativamente pequeno. O professor Luiz Carlos Delorme Prado, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contextualiza que, mesmo antes da medida, essa fatia já era modesta.

Para o especialista em economia e comércio internacional, as chances de reversão dessa tendência de tarifação são mínimas. Ele ressalta que, embora a situação seja desfavorável para setores específicos, não representa uma “tragédia” para a economia nacional. A estratégia mais provável para o Brasil, segundo Prado, é continuar a buscar e consolidar mercados alternativos para seu etanol.

Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, gerando uma receita de quase US$ 1 bilhão. Desse total, os embarques para o mercado norte-americano somaram cerca de 253 mil metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões. Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) indicam que os EUA foram responsáveis por menos de 16% do volume exportado e cerca de 17,5% da receita total, confirmando que mais de 84% do volume e 82,5% do faturamento tiveram outros destinos.

A imprevisibilidade da política comercial americana

A busca por novos mercados e o apoio do poder público para essa diversificação tornam-se cada vez mais cruciais diante da imprevisibilidade da política comercial do governo de Donald Trump. O professor Delorme Prado argumenta que, embora nenhum país deseje perder um mercado como o dos Estados Unidos, a atual administração estadunidense tornou esse mercado “muito problemático”, carecendo de previsibilidade e racionalidade.

Realizar investimentos específicos para atender ao mercado americano é, hoje, uma aposta de alto risco. Por isso, o Brasil precisa focar em parcerias comerciais mais estáveis e confiáveis. Delorme enfatiza que as tarifas não são motivadas por ganhos comerciais, mas sim pela agenda política do governo dos EUA para a América Latina, o que dificulta o estabelecimento de políticas comerciais bilaterais minimamente previsíveis.

A força do etanol brasileiro: competitividade e inovação

A competitividade do Brasil no setor sucroalcooleiro confere uma vantagem significativa na busca por mercados alternativos. Essas vantagens são estruturais, impulsionadas por custos de produção mais baixos e uma produtividade por hectare superior. O professor Luis Augusto Barbosa Cortez, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), destaca o papel fundamental do clima e do solo brasileiros.

Enquanto os EUA produzem etanol majoritariamente a partir do milho, o Brasil, tradicionalmente produtor de etanol de cana-de-açúcar, tem expandido rapidamente sua produção a partir do milho. A tendência é que a participação do milho na produção nacional cresça ainda mais, impulsionada pela possibilidade de uma segunda safra no Brasil. O produtor brasileiro pode colher soja e, em seguida, plantar milho na mesma área, permitindo duas safras por ano, algo que ocorre em menor escala nos EUA devido às limitações climáticas de um inverno mais rigoroso.

Atualmente, cerca de 75% do etanol brasileiro provém da cana-de-açúcar, e os 25% restantes do milho. A expectativa é que a participação do milho atinja cerca de 30% da produção nacional até 2030 e possa se igualar à cana por volta de 2050. Esse crescimento é impulsionado também pela integração entre agricultura e pecuária, onde o farelo do milho serve como insumo para alimentação animal, gerando ganhos ambientais ao reduzir a necessidade de áreas de pastagem.

Cortez também aponta vantagens no processo industrial brasileiro, onde parte da energia utilizada nas usinas é gerada a partir da biomassa do bagaço da cana e do milho, diminuindo os custos de produção. Nos Estados Unidos, a necessidade de adquirir energia externa eleva os custos. Além disso, a produtividade na produção de etanol de cana no Brasil é superior, alcançando aproximadamente 7 mil litros por hectare, contra um máximo de 5 mil litros nos EUA.

O pano de fundo político das tarifas americanas

Niels Soendergaard, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), avalia que as medidas tarifárias dos EUA contra o Brasil possuem um “caráter eminentemente político”, apesar de apresentarem uma “maquiagem técnica”. Segundo ele, a administração Trump, em face da ascensão de governos de extrema direita na América Latina, optou por manipular os desdobramentos políticos no Brasil através de pressão econômica externa, em vez de tratar a questão tarifária de forma técnica.

Do ponto de vista técnico, a argumentação dos EUA não se sustenta. Soendergaard afirma que o Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que a redução das importações de etanol dos EUA se deve ao aumento da produção de etanol de milho no próprio Brasil. Ele observa que o governo Trump frequentemente utiliza afirmações “parciais ou inteiramente divorciadas dos fatos concretos” para pressionar outros países, o que o torna um interlocutor pouco confiável.

Os Estados Unidos justificam as tarifas adicionais de 25% com base em uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que alega que certas práticas brasileiras seriam discriminatórias ou prejudicariam a economia norte-americana. Entre os pontos questionados estão o acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras de comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, medidas anticorrupção e desmatamento ilegal. O governo brasileiro, por sua vez, rejeita essas alegações, afirmando que a investigação carece de respaldo nas normas multilaterais do comércio internacional.

A tarifação recebeu críticas de entidades representativas tanto dos produtores de etanol de cana quanto dos de milho, como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), que se manifestaram contra a medida.

Apesar dos desafios impostos por políticas comerciais externas, o setor de etanol brasileiro demonstra resiliência e capacidade de adaptação, impulsionado por sua competitividade estrutural e pela busca contínua por novos mercados. Para acompanhar de perto os desdobramentos dessa e de outras notícias relevantes que impactam o cenário nacional e internacional, continue acessando o Portal RJ99, sua fonte de informação atualizada e contextualizada.

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