O São Paulo Futebol Clube abriu um procedimento interno para apurar a suposta atuação de uma secretária “fantasma”, um caso que não apenas levanta sérias questões sobre a gestão de recursos humanos, mas também expõe uma profunda crise política nos bastidores do clube. A funcionária, vinculada ao presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres, estaria registrada desde dezembro de 2021, mas, segundo as investigações, jamais teria comparecido às dependências do MorumBIS ou do centro de treinamento da Barra Funda.
A descoberta da irregularidade partiu da diretoria do clube, liderada pelo presidente Harry Massis, que identificou padrões atípicos na rotina de trabalho da secretária. O caso, que rapidamente ganhou contornos de escândalo, coloca em xeque a transparência e a eficácia dos controles internos de uma das maiores instituições esportivas do Brasil, em um momento de intensa disputa pelo poder.
Padrões suspeitos: folhas de ponto e e-mail externo da funcionária fantasma
As apurações internas revelaram uma série de indícios que apontam para a inatividade da funcionária. Um dos pontos mais críticos são as folhas de ponto, preenchidas manualmente todos os meses. Os registros apresentam horários de entrada e saída idênticos, sem qualquer variação, como se fossem copiados. Em diversos meses, o expediente foi marcado precisamente das 8h às 17h48, com uma hora de almoço das 13h às 14h, uma uniformidade que destoa da realidade de qualquer jornada de trabalho.
Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foi o canal de comunicação utilizado para o envio desses registros ao departamento de Recursos Humanos. Em vez de usar o e-mail corporativo do São Paulo FC, com domínio “saopaulofc.net”, os documentos eram remetidos de um endereço com o domínio “abreujr.com.br”. Este último, conforme apurado, pertence ao escritório de advocacia do qual Olten Ayres é sócio principal, levantando suspeitas sobre a independência e a conformidade do processo.
A defesa de Olten Ayres e o regime de trabalho
Questionado sobre as irregularidades, Olten Ayres confirmou a contratação da secretária em regime de home office, modalidade que o São Paulo FC não adota como padrão para a maioria de seus colaboradores, salvo exceções justificadas. O dirigente afirmou que a funcionária já havia sido sua secretária particular por um longo período e estava aposentada quando foi convidada para o cargo no clube, alegando que a contratação se deu por laços de confiança.
Ayres justificou a utilização do e-mail de seu escritório particular por questões de segurança e privacidade, afirmando que o endereço corporativo do clube seria monitorado pela administração. Ele também mencionou ter devolvido o celular corporativo pelo mesmo motivo. O salário da secretária gira em torno de R$ 7 mil mensais, e seu controle de jornada é feito exclusivamente por folha de frequência manual, já que ela não registra ponto eletrônico por não estar fisicamente no clube. Enquanto isso, o Conselho Deliberativo conta com outras duas secretárias que atuam presencialmente no MorumBIS, e diversos conselheiros afirmaram não conhecer a funcionária em questão.
O contexto político: racha entre dirigentes e desdobramentos
O caso da funcionária fantasma não é um evento isolado, mas se insere em um cenário de intensa disputa política nos bastidores do São Paulo FC. Nas últimas semanas, Olten Ayres e o presidente do clube, Harry Massis, entraram em rota de colisão. Massis acionou a Comissão de Ética pedindo o afastamento de Ayres por suposta gestão temerária no Conselho Deliberativo.
Em uma resposta direta, Ayres protocolou um pedido de impeachment contra Massis, alegando a ausência de membros independentes no Conselho de Administração – uma brecha que o presidente do clube agiu rapidamente para preencher. A Comissão de Ética, por sua vez, já atendeu ao pedido de Massis e recomendou o afastamento preventivo de Olten Ayres, enquanto a investigação sobre a gestão temerária prossegue. A votação pelo Conselho Deliberativo está agendada para a próxima semana, e a expectativa é que a secretária seja desligada do clube, com o caso podendo acelerar o desfecho da crise política. Para mais detalhes sobre a governança em clubes de futebol, você pode consultar o site da Confederação Brasileira de Futebol.
Impacto na governança e a busca por transparência
A investigação sobre a funcionária fantasma e a subsequente crise política no São Paulo FC reverberam para além dos muros do MorumBIS. Casos como este levantam importantes debates sobre a governança corporativa em entidades esportivas, a necessidade de controles internos robustos e a responsabilidade dos dirigentes. A transparência na gestão de um clube com a dimensão do São Paulo é fundamental para a credibilidade junto aos torcedores, patrocinadores e à sociedade em geral. A resolução deste imbróglio será um teste para a capacidade do clube de zelar por sua imagem e por uma administração íntegra, em meio a um ambiente de alta visibilidade e paixão.
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