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Gestão financeira: o pilar para o crescimento sustentável de pequenos negócios no Brasil

Foto: Acervo pessoal de Paulo Malanchino
Foto: Acervo pessoal de Paulo Malanchino

O cenário empreendedor brasileiro é marcado por um dinamismo notável, mas também por desafios significativos. Em 2025, o país testemunhou a abertura de 5,1 milhões de novas empresas, o maior índice desde 2010. Contudo, no mesmo período, 2,8 milhões de negócios encerraram suas atividades, conforme dados do DataSebrae. Essa dualidade expõe a força do espírito empreendedor nacional e, ao mesmo tempo, a fragilidade de muitas iniciativas que carecem de ferramentas essenciais para se manterem e prosperarem.

Nesse contexto, a gestão financeira emerge como um fator decisivo, um verdadeiro divisor de águas entre o sucesso e o fechamento precoce. Para Weniston Ricardo de Andrade Abreu, gerente adjunto da Unidade de Capitalização e Serviços Financeiros do Sebrae Nacional, o letramento financeiro é indispensável em todas as fases do negócio, desde a sua concepção até a expansão.

O Desafio da Longevidade no Empreendedorismo Brasileiro

A paixão e a expertise em uma área específica são, muitas vezes, o motor inicial para a abertura de um negócio. Entretanto, a transição de um bom profissional para um gestor eficaz exige mais do que conhecimento técnico. A história de Paulo Fernando Malanchino, de 41 anos, natural de Barretos (SP), ilustra perfeitamente essa jornada. Com uma formação em Engenharia Elétrica e vasta experiência no setor automotivo, Paulo fundou a ATSI Mecânica Avançada em 2019, impulsionado pela percepção de uma lacuna tecnológica e de mão de obra qualificada no mercado local.

Sua aposta em um ambiente diferenciado, com o chão da oficina pintado de branco, rapidamente se tornou uma marca registrada. No entanto, o ano de 2020 trouxe consigo a pandemia, dívidas acumuladas, uma carteira de clientes ainda em formação e até o roubo de seu próprio carro. Em meio a esse cenário adverso, Paulo se viu diante de um espelho, imposto pelas perguntas de um Agente Local de Inovação (ALI) do Sebrae. Questionamentos sobre ticket médio, faturamento bruto e lucro revelaram uma lacuna crucial: a falta de domínio sobre os números do próprio negócio. “Até aquele momento, eu achava que o problema era o mercado, era a pandemia, o carro roubado. No final daquela conversa de uma hora e meia, entendi: o problema sou eu”, relata Paulo.

A Virada de Chave: Quando os Números Falam Mais Alto

A experiência de Paulo não é isolada; ela reflete um desafio comum a muitos pequenos empreendedores que dominam a operação, mas carecem de familiaridade com a gestão financeira. Weniston Ricardo de Andrade Abreu enfatiza que esse trabalho deve ser iniciado antes mesmo da empresa abrir as portas. “Na fase inicial, o empreendedor precisa estruturar muito bem o negócio, fazer um plano ou pelo menos um Canvas do modelo de negócios. Também deve estar atento às regulamentações do setor. É fundamental realizar esse planejamento financeiro inicial para saber o lugar onde se quer chegar”, explica o especialista.

Para auxiliar nesse planejamento e na tomada de decisões conscientes, especialmente ao buscar crédito, o Sebrae oferece ferramentas como a Planejadora Sebrae. Essa ferramenta permite ao empreendedor inserir dados e obter uma “fotografia” da saúde financeira do negócio, orientando escolhas estratégicas.

Estratégia e Ferramentas: O Caminho para a Gestão Consciente

Com o apoio das consultorias do Sebrae, Paulo Malanchino transformou radicalmente a administração da ATSI. O que antes era guiado pelo “feeling” passou a ser orientado por dados concretos. Hoje, a empresa monitora entre 10 e 12 indicadores operacionais e financeiros, incluindo metas de desempenho de funcionários, ticket médio, margem bruta, ponto de equilíbrio, giro de estoque, faturamento e lucro. Esse acompanhamento constante é a base de uma gestão financeira sólida, como aponta Weniston, que adverte sobre os perigos de decisões baseadas apenas na percepção, que podem mascarar problemas que os números rapidamente revelam.

A filosofia de Paulo tornou-se clara: “Só cortar gastos não resolve. Eu acredito que tudo o que se mede cresce. Então, o primeiro passo de qualquer empresa é medir o que você está fazendo”. Além disso, ele aprendeu a importância vital de separar as finanças pessoais das empresariais, um erro comum que pode comprometer a saúde do negócio. Weniston complementa, alertando para o “descasamento financeiro”, quando os prazos de pagamento a fornecedores não se alinham com os prazos de recebimento dos clientes, criando um buraco no caixa.

A ATSI avançou ainda mais, incorporando ciclos de melhoria contínua baseados na metodologia PDCA (Planejar, Fazer, Verificar e Agir) e, mais recentemente, utilizando inteligência artificial para gerar planos de ação automáticos e análises aprofundadas.

Colhendo os Frutos: Crescimento, Inovação e Legado

Os resultados da gestão financeira aprimorada não demoraram a surgir. Em 2021, com o suporte do Sebrae, a ATSI iniciou sua jornada rumo à certificação do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA), construindo uma nova sede do zero para atender às exigências técnicas. Quatro anos depois, a auditoria registrou impressionantes 978 de 1.000 pontos possíveis, uma das mais altas marcas entre oficinas certificadas no Brasil. O compromisso com a gestão responsável se estendeu ao meio ambiente, com a conquista do selo Sebrae Sustentável nível bronze, graças à captação de resíduos e controle do descarte de óleo.

Com processos certificados e uma equipe consolidada, que hoje conta com oito colaboradores (contra um único em 2019), Paulo expandiu seu negócio para o que ele chama de “ecossistema automotivo”. Em 2025, fundou a FullCar Wash, garantindo que cada veículo revisado saia limpo e bonito, e a FullCar Premium, uma loja de seminovos onde todos os carros passam pela ATSI antes de serem vendidos. “Nosso ecossistema busca fazer a melhor entrega possível, sabendo que para 90% das pessoas que compram um carro, aquele veículo é um sonho realizado”, afirma Paulo.

A trajetória de Paulo ecoa em outras histórias de sucesso pelo país, como a da Balumango, em Goiânia (GO), onde os ex-professores Felipe Naves Silva, Fred e Matheus transformaram a memória afetiva da manga com sal em um negócio estruturado, com projeção de 50 novas unidades pelo Brasil, também com o apoio do Sebrae.

Para quem está começando ou se identifica com o “Paulo de 2020”, o conselho é direto: “O primeiro passo é buscar pessoas que sabem fazer a gestão. O Sebrae foi um forte aliado e me deu direção. Sozinho a gente não faz nada. É preciso ter humildade para buscar ajuda e, com ela, as ferramentas necessárias para seguir com o plano de empreendedorismo”. Além de gerir e expandir, Paulo também leciona em uma escola de educação profissional, formando novos mecânicos, e tem como propósito deixar um legado para seus filhos.

Histórias como a de Paulo Malanchino e da Balumango reforçam que a gestão financeira não é apenas um conjunto de técnicas, mas o coração pulsante de qualquer empreendimento. É a bússola que guia o negócio através das tempestades e o impulsiona rumo ao crescimento sustentável e à realização de sonhos. Para continuar acompanhando análises aprofundadas, reportagens exclusivas e as últimas notícias que impactam o seu dia a dia e o mercado, mantenha-se conectado ao Portal RJ99, seu portal multitemático de informação relevante e de qualidade.

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