A participação feminina na política brasileira tem mostrado um paradoxo persistente: enquanto o número de mulheres que buscam cargos eletivos cresce exponencialmente, a ocupação de cadeiras no Legislativo não acompanha esse ritmo. Dados recentes revelam que, entre 1998 e 2022, a quantidade de candidatas à Câmara dos Deputados aumentou quase dez vezes, mas o avanço na representação efetiva foi significativamente menor, evidenciando barreiras estruturais que persistem no cenário político.
Essa análise aprofundada foi divulgada pelo Portal da Classe Política, uma iniciativa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), lançado em 16 de junho de 2026. O estudo oferece um panorama detalhado da trajetória das mulheres no pleito, apontando para a necessidade de um debate mais aprofundado sobre as causas dessa disparidade.
Crescimento das candidaturas versus estagnação da representação
O levantamento do INCT-ReDem mostra que o total de candidatas à Câmara dos Deputados saltou de 358 em 1998 para 3.668 em 2022, um aumento impressionante de aproximadamente 925%. No entanto, a eleição de deputadas federais, no mesmo período, cresceu de 29 para 90, o que representa uma alta de 210%. Embora seja um avanço, a proporção entre o número de candidaturas e o de eleitas demonstra que a maior presença nas urnas não se traduz em igualdade de oportunidades para chegar ao poder.
Nas eleições de 2022, as mulheres conquistaram 17,5% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 17,8% das vagas nas assembleias estaduais. Esses foram os maiores percentuais registrados na série histórica analisada, mas ainda estão muito aquém de um quinto da representação parlamentar total. A situação nas assembleias legislativas estaduais segue um padrão similar, convergindo para cerca de 18% de representação feminina, um número distante tanto da paridade de 50% quanto do piso de 30% exigido para as candidaturas por lei.
O papel das cotas de gênero e seus limites
Parte do crescimento no número de candidaturas femininas é atribuída à legislação brasileira, como a Lei das Cotas de Gênero (Lei 9.504/1997) e a Minirreforma Eleitoral (Lei nº 12.034/2009). Essas leis estabeleceram uma reserva mínima de 30% das candidaturas proporcionais para cada gênero, visando incentivar a participação feminina. Contudo, os pesquisadores do INCT-ReDem alertam que a mera existência da legislação não foi suficiente para garantir condições equivalentes de competição entre homens e mulheres.
Apesar da obrigatoriedade das cotas, a realidade mostra que a estrutura partidária e a distribuição de recursos ainda favorecem os candidatos homens. A legislação, embora um passo importante, expõe a necessidade de mecanismos mais eficazes para assegurar que as candidaturas femininas tenham o mesmo suporte e visibilidade que as masculinas, transformando a cota de participação em cota de representação efetiva.
Desigualdade nos partidos: um obstáculo persistente
Para o cientista político Nilton Sainz, pesquisador da UFPR e um dos responsáveis pelo Portal da Classe Política, os principais entraves para a maior ocupação de vagas por mulheres no Legislativo residem nos próprios mecanismos de poder dos partidos políticos. Ele destaca três pontos cruciais que perpetuam essa desigualdade:
- Controle partidário dos recursos: Há um acesso muito desigual ao financiamento de campanha. Mulheres recebem menos recursos e, muitas vezes, em materiais de campanha, enquanto homens têm maior acesso a dinheiro.
- Exclusão de cargos de decisão: A exclusão sistemática de mulheres em posições de liderança dentro dos partidos reflete-se diretamente na visibilidade e no tempo de televisão que elas recebem durante as campanhas.
- Candidaturas “laranjas”: O problema das candidaturas femininas sem viabilidade real de disputa, utilizadas apenas para cumprir as cotas obrigatórias, distorce a intenção da lei e impede que mulheres com potencial tenham espaço.
Esses fatores combinados criam um ambiente onde, mesmo com mais mulheres se candidatando, a estrutura de apoio e a distribuição de poder dentro das legendas políticas não são equitativas, minando as chances de sucesso eleitoral feminino.
Impacto na agenda pública e na democracia
A baixa representação feminina no Legislativo não é apenas uma questão de justiça de gênero; ela tem impactos diretos e significativos sobre a agenda pública e a qualidade da democracia. Quando as mulheres são sub-representadas, temas essenciais para elas tendem a ser marginalizados ou sequer debatidos nos espaços de decisão.
Nilton Sainz exemplifica: “Vamos pegar o exemplo do combate à violência de gênero e ao feminicídio. Podemos citar outros temas como política de cuidados de saúde e criação de creches, que são questões prioritárias para as mulheres. Quando elas são excluídas dos espaços de poder, suas vozes são silenciadas, os impactos são diretos. Orçamento para essas agendas pode ser diminuído em relação a outras coisas que se tornam prioridades legislativas.” A ausência de diversas perspectivas resulta em políticas públicas menos abrangentes e menos eficazes para atender às necessidades de toda a população.
O Portal da Classe Política como ferramenta de transparência
O Portal da Classe Política, desenvolvido pelo INCT-ReDem da UFPR, surge como uma ferramenta fundamental para democratizar o acesso a informações eleitorais. Ele transforma dados brutos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em indicadores visuais, permitindo análises detalhadas de candidaturas, patrimônio e financiamento de campanhas de 14 eleições, abrangendo o período de 1998 a 2024.
“É possível fazer análises em nível municipal, estadual e nível federal. Por exemplo, conhecer o perfil de candidaturas, o perfil de eleitos, o perfil dos próprios partidos. Também há uma série de indicadores sobre patrimônio, taxas de reeleição e funcionamento do legislativo”, explica Nilton Sainz. A plataforma consolida uma vasta massa de dados da Justiça Eleitoral, tornando-os mais acessíveis e auditáveis para o cidadão comum, pesquisadores e jornalistas, contribuindo para uma maior transparência e um debate público mais informado sobre a representatividade no Brasil.
A luta por uma representação política mais equitativa é contínua e multifacetada. A análise desses dados e o uso de ferramentas como o Portal da Classe Política são essenciais para identificar os desafios e propor soluções que garantam que o aumento de candidaturas femininas se traduza, de fato, em mais vozes e decisões no Congresso e nas assembleias estaduais. Continue acompanhando o Portal RJ99 para mais análises aprofundadas e informações relevantes que impactam a sociedade brasileira.