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Supermercados repensam expansão física em meio a dívidas e novo comportamento do consumidor

Supermercados repensam expansão física em meio a dívidas e novo comportamento do consumidor

A paisagem do varejo alimentar brasileiro tem passado por uma transformação silenciosa, mas profunda. Aquela loja de supermercado que fazia parte da rotina de muitos consumidores pode ter mudado de bandeira ou, em alguns casos, fechado as portas. Essa realidade reflete uma mudança estratégica significativa entre as grandes redes, que estão abandonando o modelo de expansão física acelerada em favor de uma busca por maior rentabilidade e eficiência operacional.

O Grupo Pão de Açúcar (GPA), um dos gigantes do setor, é um exemplo notório dessa reestruturação. Após a venda de diversas unidades do Extra Hiper para o Assaí em 2021, muitas lojas deixaram de operar sob a marca Extra, sendo convertidas para outras bandeiras do grupo ou encerrando suas atividades. Em março deste ano, o GPA deu um passo ainda mais drástico ao iniciar um plano de recuperação extrajudicial para renegociar uma dívida substancial de R$ 4,5 bilhões, evidenciando os desafios enfrentados pela companhia.

O Fim da Expansão Desordenada e o Peso das Dívidas

Por anos, a abertura de novas lojas foi vista como a principal via para o crescimento e a conquista de mercado no varejo alimentar. A lógica era clara: quanto maior a rede, maior a capacidade de negociação com fornecedores, de ampliar a presença regional e de atrair consumidores. Em 2020, o GPA chegou a operar cerca de 800 lojas, um número que, embora impressionante, revelou-se um gargalo em termos de custos e sustentabilidade.

Especialistas do setor apontam que, embora a expansão física possa aumentar o faturamento, ela também eleva exponencialmente a estrutura necessária para operar. Gastos com aluguel, salários de funcionários, logística complexa, manutenção de estoques, tecnologia e conservação das unidades se acumulam. Em um segmento com margens de lucro tradicionalmente apertadas, qualquer aumento significativo nos custos pode comprometer seriamente a saúde financeira das empresas.

Ulysses Reis, especialista em varejo da Strong Business School, destaca que a estratégia de lojas físicas só se sustenta quando há um ganho de eficiência intrínseco à operação. “A expansão faz sentido quando existe alta conveniência, baixo custo operacional e giro rápido de estoque”, afirma Reis, sublinhando que o modelo tradicional de grandes hipermercados tem se tornado menos viável para algumas companhias.

Juros Altos e o Cenário Econômico Desafiador

O ambiente macroeconômico brasileiro também desempenhou um papel crucial nessa mudança de rota. O país vivenciou um período de juros baixos em 2020, quando a Selic, a taxa básica de juros, atingiu 2%, o menor nível histórico. Esse cenário facilitava o acesso a empréstimos mais baratos, incentivando investimentos em novas unidades e aumento de estoques.

Contudo, a reabertura econômica pós-pandemia trouxe consigo uma inflação elevada, forçando o Banco Central a elevar os juros. Em julho de 2025, a Selic alcançou 15% ao ano, o patamar mais alto em quase duas décadas. Para empresas altamente endividadas ou que dependiam de financiamentos para sua expansão, o custo do dinheiro se tornou proibitivo, impactando diretamente a capacidade de pagamento de dívidas e a manutenção das operações.

Thomas Felsberg, advogado especializado em reestruturação empresarial, explica que um endividamento caro “espreme” a operação. Ele alerta que, nesses casos, o crescimento das vendas por si só não garante uma situação financeira saudável, pois os custos e as dívidas também crescem, consumindo uma parcela cada vez maior do resultado. Diante desse panorama, redes como Dia, St Marche e Grupo Mateus, além do GPA, precisaram revisar suas estratégias, priorizando a rentabilidade das unidades existentes e a redução de custos.

O Novo Perfil do Consumidor Brasileiro

A transformação do setor de supermercados é impulsionada, em grande parte, pela mudança no comportamento do consumidor. Com orçamentos mais apertados e o endividamento em alta, os brasileiros passaram a ser mais cautelosos, buscando preços menores, comparando produtos e trocando marcas tradicionais por alternativas mais acessíveis. A proximidade da loja, antes um fator decisivo, perdeu espaço para a combinação de preço, conveniência e experiência de compra.

Pesquisas de mercado corroboram essa tendência. Um levantamento da NielsenIQ (NIQ) de junho deste ano revelou que 66% dos consumidores buscam opções de menor preço, 45% escolhem produtos mais baratos independentemente da marca, e 80% planejam suas compras com antecedência. Além disso, 47% dos brasileiros manifestaram a intenção de comprar mais produtos de marca própria, que geralmente oferecem preços mais competitivos.

Essa nova postura do consumidor impulsionou formatos como os atacarejos, que oferecem preços mais baixos para compras em volume, e aumentou a relevância das marcas próprias. Segundo dados da Abras, os atacarejos responderam por 29% das vendas do varejo alimentar em 2025, movimentando R$ 327,7 bilhões. O autosserviço tradicional (supermercados e hipermercados) ainda lidera com 49% do faturamento, mas a ascensão de outros formatos é inegável.

A Ascensão dos Canais Digitais e a Nova Concorrência

A busca por economia e conveniência também acelerou a adoção de canais digitais. Plataformas online permitem comparar preços e pesquisar avaliações sem depender exclusivamente da visita à loja física. Em 2025, o marketplace movimentou R$ 7,3 bilhões, representando cerca de 1% do faturamento total do varejo alimentar. Embora a participação ainda seja pequena, o canal já figura como o quinto maior formato de vendas do setor, conforme a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Essa digitalização intensificou a concorrência. Além dos supermercados tradicionais, empresas de tecnologia e logística como Mercado Livre, Amazon, iFood e 99 entraram na disputa pelo consumidor, oferecendo a compra de alimentos e bebidas por meio de aplicativos e serviços de entrega rápida. A conveniência de receber as compras em casa, aliada à facilidade de comparação de preços, tornou-se um diferencial competitivo.

O casal Matheus Matsumoto e Thalita Brito, criadores do canal “Casal Ponto Com” no YouTube, exemplificam essa mudança de hábitos. Após enfrentarem dificuldades financeiras, eles reorganizaram sua rotina de compras, planejando idas ao supermercado, pesquisando preços, montando listas e testando marcas próprias. “Antes a gente tinha o costume de pensar: ‘sabão em pó tem que ser de determinada marca, detergente tem que ser daquela outra’. Aí começamos a nos questionar: nas condições em que estávamos, precisando economizar, será que fazia sentido continuar escolhendo sempre a marca mais cara?”, relata Matheus, mostrando como a necessidade de economizar transformou suas escolhas de consumo.

Essa nova realidade exige que as redes de supermercados se adaptem rapidamente, investindo em formatos mais eficientes, tecnologia e uma compreensão aprofundada das necessidades de um consumidor cada vez mais exigente e consciente de seu orçamento. A era da expansão desordenada parece ter chegado ao fim, abrindo caminho para um varejo alimentar mais estratégico e focado na sustentabilidade.

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