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Votação da autonomia financeira do Banco Central é adiada no Senado

Lula Marques/Agência Brasil
Lula Marques/Agência Brasil

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal adiou, nesta quarta-feira (20), a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65/2023, que visa conceder autonomia financeira e orçamentária ao Banco Central (BC). A decisão de adiar o debate ocorreu após um pedido de vista coletivo, um instrumento regimental que permite aos senadores mais tempo para analisar a matéria. A expectativa é que o tema retorne à pauta da CCJ na próxima semana, prolongando a discussão sobre um dos pontos mais sensíveis da governança econômica do país.

A proposta em questão busca consolidar a independência do Banco Central, que, desde 2021, já possui autonomia administrativa e operacional em relação ao governo federal. Contudo, a instituição ainda permanece atrelada ao Orçamento da União para a execução de suas atividades, o que, segundo seus defensores, limita sua capacidade de atuação e planejamento. O adiamento reflete a complexidade e as divergências em torno de uma medida que pode redefinir o papel e a capacidade de gestão da autoridade monetária brasileira.

O que a PEC da autonomia financeira propõe

A PEC 65 de 2023 tem como objetivo principal ampliar a independência do Banco Central, permitindo que a instituição retenha recursos próprios. Atualmente, o BC gera receitas significativas, principalmente por meio da senhoriagem – o lucro obtido com a emissão de moedas –, que são estimadas em bilhões de reais anualmente. Esses valores, hoje, são transferidos para o Tesouro Nacional para abater a dívida pública, seguindo as regras fiscais impostas a toda a administração pública.

Inicialmente, o texto da PEC previa a transformação do Banco Central em uma empresa pública de direito privado. No entanto, após intensas críticas da base governista, o relator da proposta, senador Plínio Valério (PSDB-MA), modificou o parecer. A nova redação classifica o BC como uma “entidade pública de natureza especial”, buscando um meio-termo que preserve parte de sua vinculação ao Estado, mas com maior flexibilidade. O relator afirmou ter acolhido diversas demandas do Poder Executivo, inclusive deixando para o governo a responsabilidade de enviar um projeto de lei complementar para regulamentar a estrutura organizacional do BC.

Debate político e as críticas à proposta

A proposta de autonomia financeira do Banco Central não é unânime e tem gerado um acalorado debate político. O senador Rogério Carvalho (PT-SE) apresentou um voto em separado, pedindo a rejeição integral da PEC 65. Entre seus argumentos, Carvalho alega que a proposta é inconstitucional, pois o tema seria de iniciativa privativa do presidente da República. Além disso, ele critica a mudança da natureza jurídica do BC, defendendo que a instituição deve ser mantida como autarquia de natureza especial para garantir a segurança jurídica na execução de seus atos, que são típicos da Administração Pública.

Especialistas consultados pela Agência Brasil também expressam preocupações, classificando a autonomia orçamentária como uma espécie de “privatização” da autoridade monetária. Eles alertam para a possibilidade de custos fiscais ao país, uma vez que a retenção de receitas pelo BC significaria menos recursos para o Orçamento da União, impactando diretamente a capacidade do governo de gerir a dívida pública e investir em outras áreas. O professor associado de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pedro Paulo Zaluth Bastos, reforça que, mesmo com as modificações, o “coração da proposta” que gera controvérsia permanece intacto.

Impacto nos servidores e a defesa do BC

Um dos pontos mais polêmicos da PEC diz respeito aos servidores do Banco Central. A proposta prevê que eles deixem de ser submetidos ao regime único da União e passem a ser empregados públicos, regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Essa mudança é veementemente rejeitada pelo Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal).

Em comunicado, o sindicato expressou que a PEC “representa um salto no escuro para o Estado brasileiro e para a sociedade”. O Sinal argumenta que a desvinculação do BC do Estado pode enfraquecer os controles democráticos, fragilizar a supervisão do sistema financeiro e reduzir a transparência dos gastos. Além disso, a entidade alerta para a concentração de poder na alta administração, inclusive para criar e extinguir cargos. O professor Bastos, da Unicamp, critica a redução da estabilidade dos funcionários, ressaltando que, em uma autoridade que regula e sanciona bancos privados, a estabilidade é crucial para proteger o servidor que toma decisões de alto impacto.

Por outro lado, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tem sido um forte defensor da proposta. Ele argumenta que a instituição não possui recursos suficientes para suas atividades normais e que a restrição orçamentária tem levado a uma perda significativa de pessoal. Galípolo citou que, nos últimos dez anos, o BC perdeu mais de 1.200 servidores e que, somente neste ano, 100 servidores da área de supervisão devem se aposentar, reduzindo o quadro de 600 para 500, enquanto o número de instituições a serem supervisionadas no mercado só aumenta. Para ele, sem a autonomia financeira, o BC poderá chegar ao ponto de ter que “escolher o que fiscalizar no sistema financeiro”, um cenário preocupante para a estabilidade econômica do país.

A votação da PEC 65/2023 na CCJ do Senado é um momento crucial para o futuro da governança econômica brasileira. As discussões em torno da autonomia do Banco Central, seus impactos fiscais, a natureza jurídica da instituição e a situação de seus servidores continuam a pautar o debate legislativo. Acompanhe o Portal RJ99 para se manter informado sobre os desdobramentos desta e de outras notícias relevantes que moldam o cenário nacional, com análises aprofundadas e contexto para você entender o que realmente importa.

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